Existe uma frase que aparece de tempos em tempos na internet:
"Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos."
Eu passei anos acreditando nela.
Talvez porque ela ofereça uma explicação confortável. Se eu aceitava pouco, era porque pensava pouco de mim. Bastava aprender a me amar e, como num passe de mágica, todas as minhas relações mudariam.
Mas a vida nunca foi tão simples.
Hoje eu desconfio dessa frase.
Porque ela parte do princípio de que escolhemos o amor de forma consciente. Como se, diante de uma vitrine, olhássemos para todas as possibilidades e disséssemos: esse aqui combina com a autoestima que eu tenho.
Não é assim que acontece.
O amor não chega até nós em estado puro. Antes de encontrar qualquer pessoa, nós já passamos anos aprendendo uma língua sem perceber.
Aprendemos o que significa ser cuidado.
O que significa ser ouvido.
O que significa errar.
O que significa existir perto de alguém.
E, principalmente, aprendemos quanto de dor cabe dentro da palavra "amor" antes que ela deixe de ser amor.
Essa talvez seja a lição mais silenciosa que recebemos.
Ninguém precisa nos dizer em voz alta que carinho exige sacrifício. Basta crescer vendo alguém pedir desculpas por coisas que não fez. Basta descobrir que algumas pessoas só oferecem afeto depois que você se esforça o suficiente para merecê-lo. Basta viver tempo suficiente num lugar onde o amor sempre vem acompanhado de medo.
Depois de um tempo, a dor deixa de parecer um acidente.
Ela passa a parecer o preço de entrada.
E talvez seja por isso que algumas pessoas estranham relações tranquilas. Não porque gostem de sofrer, mas porque a paz fala uma língua que elas nunca aprenderam.
É curioso como a infância consegue nos convencer de que certas coisas são universais.
Até que alguém nos ama de um jeito diferente.
E talvez esse amor nem seja romântico. Às vezes, ele chega na forma de uma amizade que não exige desempenho, de alguém que permanece sem que você precise merecer a permanência.
E, de repente, você percebe que passou anos chamando de intensidade aquilo que era ansiedade. Chamando de cuidado aquilo que era controle. Chamando de insistência aquilo que era abandono em câmera lenta.
Talvez seja por isso que tantas pessoas vão embora de relações saudáveis.
Não porque não desejem ser amadas.
Mas porque existe algo profundamente desconcertante em um amor que não se parece com nenhum que veio antes.
Como reconhecer uma língua que nunca ouvimos?
Como confiar numa calma que sempre nos ensinaram a chamar de desinteresse?
A parte mais difícil de reaprender o amor não é encontrar alguém que nos ame de verdade.
É acreditar que esse amor existe quando ele não desperta o caos ao qual nos acostumamos.
Talvez eu mudasse a frase.
Nós não aceitamos o amor que achamos que merecemos.
Nós rejeitamos o amor que não reconhecemos.
Até a próxima crise existencial disfarçada de texto bonito,
Ana Joy




é acreditar que o amor existe.
Sem o que comentar por enquanto… só sentindo essas palavras no estômago. 🤯